sábado, 4 de agosto de 2018

O gol mais importante que D'Alessandro não fez.



Meu pai era um homem simples, trabalhador, admiravelmente correto e, acima de tudo, colorado!!! Torcedor corneteiro, adorava flautear os gremistas e ficava mal humorado quando acontecia o contrário.

Sabia tudo sobre o Internacional, gostava de relembrar das escalações mais gloriosas, do rolo compressor, dos gols espetaculares e das vitórias mais contundentes, especialmente as obtidas contra o Grêmio. Ajudou o clube trabalhando na construção do Beira-Rio e recebeu o título de Sócio Paraninfo, que ostentava com orgulho.

Não perdia jogos do Inter; preferia assistir ao vivo, mas, quando não podia, ia para a frente da TV, invariavelmente, com o radinho colado no ouvido. Em meio a qualquer evento, festa de aniversário, casamento ou até velório, se o colorado estivesse jogando, o radinho surgia discretamente de tempos em tempos e, logo em seguida, voltava para o bolso.

Havia uma ligação umbilical, uma necessidade de acompanhar o time, e assim foi até o final.

Eu era muito pequeno quando ele começou a me levar ao estádio. Lembro-me do meu querido apontando para o campo e dizendo: “Presta atenção no alemão com a camisa 5. Joga demais! É o Falcão!”.

Ainda criança, fomos assistir a um treino no campo suplementar, e ele fez questão de me apresentar o uruguaio Rubem Paz, articulador talentoso, jogador de seleção e destaque do Inter daquela época.

Desde então, a paixão pelo futebol foi compartilhada, e acompanhar o nosso time virou um hábito prazeroso. De lá para cá, estivemos inúmeras vezes lado a lado nas arquibancadas entoando: “vamo Inter, vamo Inter!”. Na época mais recente e gloriosa, fiz questão de retribuir com a mesma dedicação e passei a levá-lo, já debilitado, a todos os jogos que podia. Como diria o rei Roberto Carlos: “Foram tantas emoções!”. Abraçávamos-nos a cada gol, e voltávamos quase roucos para casa quando a equipe conquistava um título, transbordando felicidade e gritando: “É campeão!!! É campeão!!!”.

Esses momentos ficarão para sempre na minha memória. Esta é a magia imensurável do esporte. Também é verdade que vivenciamos várias derrotas, mas as decepções fazem parte das melhores histórias.

O “Seu Zé”, como era mais conhecido, tinha opiniões fortes e extremistas. Caracterizava-se por ser do tipo “oito ou oitenta” e costumava destacar os jogadores que admirava e, também, os que detestava.

No time de 2014, os alvos eram D’Alessandro, que considerava um craque, e Fabrício, o qual não aceitava nem como reserva do reserva da lateral esquerda. Na opinião dele, os dois atletas eram muito diferentes: enquanto o gringo lhe encantava pela habilidade, disposição, raça e inteligência, o lateral o irritava profundamente por apresentar características opostas, principalmente a indolência.

Os últimos meses de vida do meu velho foram bem difíceis, boa parte dentro do hospital; ele faleceu numa terça-feira, dia 11/02/2014. Dois dias antes, aconteceu um GreNal, cujo resultado foi empate, com gols do centroavante Barcos para o rival e, justamente, do Fabrício, que abriu o placar.

O quadro clínico dele havia se agravado na noite anterior; não conseguia mais falar, estava muito fraco, porém, lúcido! Nesse domingo, tivemos nosso último e inesquecível diálogo. A visita era no início da noite, e a partida tinha terminado há pouco quando cheguei ao quarto em que ele estava na UTI. Ele, nitidamente, me esperava angustiado; quando me viu entrar, tentou falar alguma coisa, mas não conseguiu.

Deve ter sido horrível ficar longe do inseparável radinho numa tarde de clássico. Parei ao lado da cama, e ele me olhou diretamente nos olhos, levantou as sobrancelhas e espalmou as mãos para cima com bastante esforço. Entendi o gesto: tentava me perguntar qual tinha sido o resultado do jogo. Nessa altura, intimamente, eu já sabia que o meu melhor amigo estava prestes a partir.

Então, não hesitei em mentir.

Foi uma mentira do bem, daquelas que carinhosamente afagam a alma: “Dois a um pra nós, pai. Ganhamos!”. De pronto, o semblante dele mudou para melhor. Na sequência, teve mais dificuldade e superação para fazer outra pergunta. Desta vez, consegui ouvir um sussurro:  “Quem?”.

Ele precisava saber o nome dos protagonistas, e eu não poderia tirar o gol do malquerido lateral. Era justo e também a parte verídica da minha resposta. Então, pronunciei o primeiro nome: “Fabrício…”. O “Seu Zé” demonstrou espanto e fez uma expressão de dor.

Logo em seguida, lhe falei o que mais queria ouvir: “O segundo gol foi dele pai, o D’Ale decidiu outra vez!”.

Ele fechou os olhos e pareceu imaginar o argentino correndo, com os punhos cerrados e batendo no peito, indo ao encontro da torcida vermelha. Como é doce o sabor de uma vitória. Nesse momento, o vi sorrir suavemente pela última vez.

Então, me debrucei sobre o meu pai, meu querido, meu velho e meu amigo.

E foi assim que, do nosso jeito, comemoramos juntos o gol mais bonito e importante que o D’Alessandro, o maior camisa 10 colorado, jamais fez!



Fábio William Rosa é colorado e um orgulhoso filho do Seu Zé.

#Dale10anos. Dale pra sempre.

12 comentários:

  1. É de chorar! Que maravilha de postagem.

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  2. É de chorar mesmo! Emocionante!

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  3. Lembrou muito minha história cm meu pai.... lágrimas

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  4. É minha história! Meu pai faleceu no dia 26/02/2016, colorado doente como eu. Parceiro de assistir jogos e grenais sempre juntos. Na noite do mundial não dormimos de tanta ansiedade. Uma manhã inesquecível. Graças a Deus que meu pai não viu nosso inter ir para segunda divisao e nem ficar sabendo que o nosso gringo havia voltado pro River. Mas bem sei que de onde está, estará sempre junto comigo na torcida!

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  5. Muito lindo mesmo, Pais colorados, grandes histórias, o meu querido velho nos deixou em 2008 mas também tem história como que ele queria bater no José Asmuz no pátio do Beira rio por ele ter vendido o Falcão..

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  6. Meu pai coloradissimo em um domingo me levou para ver um grenal na baixada que ele chamava de chiqueiro para ver o rolo compressor deste dia em diante passei a ir sempre que podia a ver o nosso colorado sempre e desde a década de 50 sou sócio remido e posteriormente sócio patrimonial do parque gigante com muito orgulho ! Vamo, vamo, vamo INTER !!!

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  7. Emocionante!! Extremamente lindo!!

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  8. Uma paixão que passa de pai para filho !!!! ♥️♥️

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  9. Belíssimo relato !!
    Certamente, Todos nós vibramos juntos com a narração deste gol !!!

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  10. Caraio 'cusao', chorei aqui. Puta texto e atitude, parabéns

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